Quando cheguei em Dubai, nos Emirados Árabes, levei um susto. Tudo parecia muito diferente e cheguei a achar que nunca me acostumaria com a vida aqui. Hoje, faz dois meses que moro aqui e posso dizer que a minha opinião mudou bastante, ou melhor, mudou radicalmente.
Com certeza Dubai é muito diferente do restante do mundo. É um emirado com uma sociedade multicultural mas que ainda preserva sua própria identidade. Você anda pelas ruas e consegue perceber nitidamente essa diferença cultural dos Emirates com os internacionais. Porém, existe uma troca cultural entre eles, entendendo que a diversidade é uma fonte de melhoria para a sociedade. Observando isso, entendo porque aproximadamente 150 nacionalidades coexistem em um só lugar, pacificamente.
O governo preserva fortemente as tradições locais, mas dá abertura para que cada um siga a sua própria tradição. O Islamismo é a religião local, com muitas mesquitas espalhadas ao longo da cidade. Dizem que cada Muçulmano tem o direito a realizar todas as rezas do dia (cinco rezas no total) dentro de uma mesquita, então existem mesquitas a curtas distâncias de qualquer ponto da cidade. A maioria das religiões são bem vindas aqui e todos podem exercer sem nenhuma restrição. Porém, quem não é Muçulmano não pode entrar em uma mesquita. Existem horários para visitas e uma série de regras. As mulheres devem estar totalmente cobertas e com o véu cobrindo o cabelo. Dependendo da mesquita, eles até exigem que as mulheres usem a abaaya, vestimenta tradicional e obrigatória das mulheres Muçulmanas. Os homens podem entrar normalmente, mas devem estar com as pernas cobertas. Além disso, é proibido entrar com sapatos.
O Islamismo é mais do que uma religião, é uma maneira de viver, que governa todos os eventos da vida de um Muçulmano, como a maneira de vestir, o que comer e beber. A poligamia é praticada, sendo permitido que o homem tenha até quatro mulheres desde que ele tenha condições de sustentá-las igualmente. É difícil para a gente, ocidental, acreditar nisso, mas realmente está escrito do livro sagrado deles, o Alcorão. Além disso, as mulheres a partir do primeiro dia do primeiro ciclo menstrual são obrigadas a usar a abaaya e o véu cobrindo o cabelo. Para os mais tradicionais, o uso da burka (máscara preta cobrindo o rosto) também é obrigatório. Os homens não são obrigados a usar nenhum tipo de roupa, mas muitos deles, por tradição da família, usam o dishdasha (um vestido longo branco) e a gutra (um lenço xadrez em branco e vermelho) na cabeça amarrado com um cordão preto. Essa roupa era usada pelos homens no deserto, para se protegerem do sol e do calor. Quem não é Muçulmano pode se vestir da maneira que quiser, porém em muitos lugares a tradição local pede para que os ombros e o joelhos estejam cobertos.
A língua oficial é o Árabe, mas como 80% da população é internacional, o Inglês, o Hindu e o Filipino são comulmente falados. Todo mundo se comunica em inglês, o que gera uma bagunça na comunicação. Nem todo mundo fala inglês fluentemente e como existem várias nacionalidades aqui, cada um tem um sotaque. Muitas vezes você sai de uma conversa sem ter entendido nada do que a pessoa falou e muitos balançam a cabeça dizendo sim, quando muitas vezes eles querem dizer não. Falar ao telefone também gera muitos desencontros e erros de informação. O que é possível fazer para a melhoria da comunicação? Estava conversando sobre isso com o meu marido durante o final de semana. Será que a melhor maneira é obrigar que todos falem Árabe? Ou pelo menos o inglês, fluentemente? Imaginem quantos erros já não aconteceram por causa da falha na comunicação.
Outra coisa super diferente aqui é o final de semana. Ao invés de ser sábado e domingo como em qualquer outro lugar do mundo, o deles é sexta e sábado, sendo que sexta é um dia sagrado. Muitas coisas não abrem na sexta e quando abrem é das 16h as 20h, após o horário da terceira reza do dia. O comércio não gerenciado por Muçulmanos abre normalmente, principalmente os voltados ao turismo, como restaurantes e shoppings. Falando em restaurantes, bebida alcoolica é vendida somente dentro dos restaurantes do hotéis. É proibida a venda em qualquer outro restaurante. Agora entendo a cultura de ir sempre jantar em um hotel. Mesmo os residentes não tem acesso facilmente ao álcool. Existe uma cota de bebida alcoolica que você pode comprar no ano, e essa cota é baseada no seu salário. Para comprar você tem que fazer uma carteirinha e ir a certos estabelecimentos autorizados a vender, não é em qualquer lugar que você encontra. Além disso, ficar bêbado é contra as regras e você pode sofrer severas punições se for flagrado bêbado.
O que eu percebo é uma sociedade perdida, tentando se abrir para o resto do mundo, mas com medo de perder seus valores. Ao mesmo tempo que você vê aquele Muçulmano tradicional, você vê aquele revoltado com a tradição e com essa abertura que os internacionais tem aqui. Muitas vezes já vi meninas andando pelas ruas da cidade sem o véu na cabeça ou com a abaaya totalmente aberta, mostrando todas as suas curvas, o que é extremamente proibido na religião. Muitos já não rezam cinco vezes ao dia e parecem não ligar quando chega o horário da reza. É uma sociedade extremamente capitalista e que aos poucos está se quebrando com a descoberta de um mundo até então muito desconhecido a muitos deles. E então pergunto: O que deve ser feito para que essa coexistência continue sem afetar a cultural local?
Mar/2010
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