A INCLUSÃO SEM BARREIRAS |
José Antônio da Silva |
Ao analisarmos os diversos casos de brasileiros que tiveram que partir de longínquos interiores para buscar um meio melhor de vida, formação, profissão, casamento e até a sua sobrevivência, temos algumas agradáveis surpresas, sobretudo na forma em que essas movimentações aconteceram. Veremos que a vida não foi fácil para esses cidadãos, quando deixaram suas famílias e partiram em busca de melhores condições de vida, em lugares tão distantes. Na grande maioria dos casos, tiveram que encarar uma cidade grande com pessoas muito diferentes e, sozinhos, aprenderam a conviver com uma realidade nunca vista anteriormente. Há que se reconhecer e destacar a enorme solidariedade com que todas essas pessoas foram recebidas e como tiveram suas vidas facilitadas, sendo oferecidas a elas diversas oportunidades para crescer, apesar de suas limitações intelectuais e culturais. Basta imaginar como era o sistema de ensino por esses rincões brasileiros e o que era possível aprender, quando as crianças começavam a trabalhar com apenas cinco anos de idade para ajudar no sustento da casa. Daí a dificuldade de assimilar uma nova cultura, totalmente diferente daquela vivida até então. Aqui, eu gosto de citar o meu próprio exemplo, quando tive que abandonar o convívio de minha família aos 14 anos de idade e partir para uma cidade grande, em busca de caminhos que me levassem a um futuro melhor. Ao ser apresentado a uma instituição de ensino especializado, já que sou deficiente visual, fui muito bem recebido pela diretoria da escola e logo depois, integrado ao grupo dos alunos que ali estavam, o que me fez sentir totalmente à vontade no novo ambiente, já no segundo dia. Com a ajuda de parentes e outros amigos conhecidos posteriormente, foi possível o complemento que eu precisava para continuar minha permanência ali. A integração com a parte externa da escola, em sistema de internato, evitou a ilusão de que aquilo era tudo o que existia naquela cidade. Como sempre fui muito esforçado e destaque na escola, terminados os cursos, fui encaminhado para São Paulo, onde iniciei uma nova fase da vida, a etapa profissional. De novo, fui sempre muito bem recebido em todos os lugares por onde passei e sempre tive muitas oportunidades de desenvolver as minhas verdadeiras habilidades e de crescer naquilo que escolhi para fazer. Eu poderia ficar contando vários casos de inclusão como esse, cujas limitações nunca constituíram barreiras insuperáveis ao crescimento das pessoas, bastando ter força de vontade e sabedoria para aproveitar as oportunidades que as escolas, as empresas e a sociedade oferecem a todos os brasileiros e até aos estrangeiros que tiveram que fugir dos seus países distantes. Quando estudamos sobre inclusão, estamos falando de aceitar todas as pessoas em todos grupos organizados da sociedade, com as suas diferenças, sejam elas de ordem física, social, cultural, religiosa, intelectual, econômica ou racial.
Oportunidades É sempre bom lembrar das inúmeras oportunidades que a vida nos oferece, independentemente de nossas características ou limitações físicas e intelectuais. Devemos relutar a todo o momento contra a tendência de ficarmos justificando os nossos fracassos e os prejuízos causados pela omissão e falta de iniciativa, quando tínhamos a possibilidade de correr atrás dos nossos objetivos e não o fizemos. Quando falamos de inclusão, estamos mal acostumados a esperar sempre por uma ação de outras pessoas ou entidades que conseguem tudo para nós. É preciso compreender, entretanto, que as melhores oportunidades são oferecidas a quem se esforça, sabe definir os seus objetivos e trabalhar insistentemente a fim de atingi-los. As conquistas fáceis são perdidas com a mesma facilidade que foram conseguidas. É só olhar para os exemplos dos maiores executivos de destaque no mundo inteiro e percebemos que o sucesso não vem de graça. Ao contrário, depois que tiveram de estudar por 20 anos ou mais, se esforçaram muito até chegar a uma posição de destaque e ainda têm que trabalhar 12, 14 ou mais horas por dia para se manter no alto posto almejado por todos. As oportunidades são muitas, mas precisam ser o nosso alvo. São os desafios do dia-a-dia que nos fazem crescer e nos tornam vencedores em cada empreitada que nos propomos a enfrentar. A inclusão não será possível se não tiver um esforço de cada um de nós, em incluir todos os cidadãos sem se importar com suas limitações em todos os grupos da sociedade organizada e se não houver a capacidade desses cidadãos em ocupar seus espaços e dar o melhor de si, para o seu crescimento profissional e pela conquista do sucesso desejado. Sem muito estudo e trabalho, não adianta lei de proteção, ajuda da sociedade e nem contar com a sorte, porque não chegaremos a lugar nenhum. Sabemos de muitas pessoas que ficam se lamentando que não têm sorte na vida, mas nunca fizeram nada para sair dessa situação. É uma pena, pois há um enorme potencial desperdiçado e muito trabalho por fazer. O mundo está carente por pessoas comprometidas com o sucesso e a sobrevivência de todos.
Desafios Reforcei bastante a questão do esforço de cada um no trabalho de inclusão porque tenho notado que há um certo comodismo de algumas pessoas que se colocam na posição de protegidos pelas leis e acham que não precisam buscar o seu próprio espaço. Eu mesmo, quando comecei a trabalhar em fevereiro de 1978, fui contratado para embalar gelatina numa fábrica e descobri que das 10 atividades que eram desenvolvidas ali, somente três não podiam ser feitas por um deficiente visual. Atuei em todas elas e fui transferido para outra área, a fim de abrir mais oportunidades para deficientes. Até que, em setembro de 1979, fui para a área de TI, onde trabalho até hoje e pude desenvolver vários projetos com muitos avanços na administração das empresas. Se eu tivesse ficado acomodado sob a proteção de uma lei ou de uma diretoria preocupada em atender uma questão social, eu não teria conseguido muitas das conquistas que consegui até aqui. As leis ajudam a dar o primeiro passo e obrigar as empresas a dar o primeiro emprego. O resto fica por conta dos profissionais, que tem de fazer da sua parte, para que essa inclusão aconteça de fato. Quanto às empresas, essas precisam ficar atentas ao esforço de cada um, buscando viabilizar o crescimento profissional de seus empregados, independente de suas limitações. A inclusão de diversidade, quando se trata de contratar um deficiente, requer uma melhor adequação de seus ambientes para receber esses profissionais. Precisamos ter treinamentos adaptados, uma comunicação ao alcance de todos e uma garantia de que o crescimento só depende de nós e que não há restrições provocadas por falta de ação dos empregadores. Precisamos garantir que tudo o que é oferecido aos outros empregados, também seja estendido aos deficientes que trabalham com eles. Assim podemos garantir que a inclusão aconteça de fato e de direito, permitindo a todos ter uma carreira bem estruturada, como qualquer outro profissional.
Outubro/2009
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