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A BUSCA DE OPORTUNIDADES NA INCLUSÃO SOCIAL

 

José Antônio da Silva

 

      O tema da inclusão é muito rico e oferece uma ampla gama de oportunidades para reflexão e criação de novas maneiras de se trabalhar, sempre de forma produtiva, mas voltada ao aproveitamento das diferenças, não como uma forma de ajuda que apenas superprotege as pessoas com deficiência, sem entrar no centro da questão e entender toda a dinâmica de funcionamento da inclusão. É preciso promover uma renovação completa nas nossas relações profissionais, ministrando treinamentos e garantindo a conscientização efetiva de todos os colaboradores da organização, para a necessidade de se oferecer um ambiente de trabalho saudável, onde o conjunto - empresa, empregados e comunidade - contribua para o aproveitamento pleno do potencial existente na diversidade.

É importante observar os esforços que já foram desprendidos e os excelentes resultados já obtidos por todas as minorias que não se acomodaram diante de suas dificuldades e foram à luta em busca de melhores condições de vida.  Aprendi muito com o exemplo dos negros, que se destacaram no esporte, na política, na arte e nos diversos postos ocupados e deram-nos uma contribuição enorme, ensinando o caminho para a busca das oportunidades e abrindo as portas para todos os demais candidatos com alguma dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

Nesse processo, podemos dizer que o setor público deu a sua contribuição na formação e ocupação da mão de obra especial e a sociedade acolheu as minorias em seus ambientes, nos locais de trabalho ou em outros grupos organizados, como as religiões, as ONG’s, os clubes e em outros exemplos de convivência social.

Desde que foram criadas as escolas para deficientes visuais, auditivos e intelectuais no Brasil a partir de 1850, aconteceram várias conquistas das pessoas com deficiência atuantes em tantas profissões, como escritores, advogados, professores, executivos, músicos e várias outras atividades desenvolvidas pelos deficientes de todos os grupos.

É fato que todas as conquistas sempre vieram com muita luta, mas a recompensa sempre aconteceu para esses heróis corajosos e criadores de tantas oportunidades para nós.  É isso que nos incentiva a ir sempre à luta e não medir esforços para perseguir as metas e batalhar pelos nossos objetivos, que muitas vezes parecem inalcançáveis.

 

Os desafios

Ao se iniciar o processo educacional de uma criança deficiente, não conseguimos mensurar muitas vezes o quão difícil é prepará-la para a vida e para ocupar seu lugar com dignidade na sociedade. 

Vejo todos os dias as crianças levadas pelos avós, pelos pais ou pelas babás à escola e fico pensando no longo caminho que elas percorrerão até serem inseridas no meio produtivo e ocuparem seu lugar no mercado de trabalho.  Terão que aprender de tudo, desde como se relacionar com as pessoas, até criar uma imagem positiva em torno de si e poder vender suas idéias como as mais propícias aos negócios que atenderão no futuro.

Se imaginarmos esse mesmo longo caminho em relação a uma criança com deficiência, veremos que a tudo que se faz por uma criança sem deficiência somam-se as soluções para as muitas dificuldades que os deficientes trazem consigo, devido as suas limitações.

Não adianta ficarmos sonhando e dizendo que todas as crianças são iguais e que basta matricular as crianças deficientes numa escola comum e que o resto se resolve, porque elas completam a sua escolaridade despreparadas, sem condições de apreender tudo que o ensino lhes oferece. 
Então, cabe às escolas que querem trabalhar com profissionalismo e com a responsabilidade que a sua função exige, prover todas as condições para a efetiva preparação desses pequenos alunos.

Uma vez que os principais desafios educacionais foram vencidos e todos os futuros adultos estão preparados para concorrerem em condições de igualdade, a preocupação passa a ser, entre outras instituições, das empresas, que terão que garantir a infraestrutura e a possibilidade de acesso a todos, de forma democrática e justa. 

A ISO 26.000 define claramente as responsabilidades empresariais quanto à sustentabilidade e aos compromissos sociais inerentes ao empreendedorismo econômico, não permitindo uma eventual omissão dos responsáveis pela inclusão desses trabalhadores nas empresas.

A Lei de Cotas incentivou as empresas a contratarem pessoas com deficiência em grande quantidade, com baixos salários e sem se preocuparem com a inclusão funcional desses empregados.  Algumas vezes, ficam em cargos irrelevantes, com baixa remuneração e são impedidos de buscar novos desafios, devido ao alto custo que isso representa para os empregadores.

Temos que buscar constantemente uma solução para esse problema, incorporando a diversidade em todos os níveis da pirâmide organizacional, mesmo que, para isso, tenhamos que redesenhar todo o cenário de postos de trabalho, com suas remunerações.  Precisamos descobrir as habilidades específicas de cada empregado e determinar que todos sejam incluídos e reconhecidos adequadamente pelos seus esforços.  Isso, sem dúvida, estará incentivando os participantes das organizações a darem o máximo de si, sabendo que o critério justo adotado não deixará de recompensar a todos pela dedicação e pelo comprometimento na execução de suas
Tarefas.

Resolvido o problema nas empresas, podemos, sim, cobrar os colaboradores diretos, com ou sem deficiência, a se esforçarem.  O desafio é de todos: os líderes cobram tudo que os empregados podem dar e os empregados procuram dar o máximo de si, cobrando sempre o reconhecimento pelo seu esforço e promovendo o sucesso da coletividade com a consciência de que a empresa representa uma importante função social à nação e recebe de volta os bons resultados do seu empreendimento.

 

A conquista do espaço

Desde muito pequenos somos acostumados a competir e buscar espaço nos ambientes em que vivemos.  Queremos sempre um lugar maior no banco, maior tempo no colo da mãe ou mais oportunidades nos brinquedos do parquinho.  Crescemos com essa necessidade e isso acaba permanecendo por toda a vida.

No trabalho não é muito diferente.  Não é porque somos considerados adultos que não queremos competir por um pedacinho a mais do nosso ambiente.  A diferença é que, agora, queremos espaço, reconhecimento, valorização e mais oportunidades, por exemplo, nas empresas.

A busca de oportunidades passa por um longo período de preparação e termina por provar a competência para a ocupação de um determinado posto.  Cresce cada vez mais o sentimento de que precisamos ter sempre as pessoas certas nos lugares certos, para que possamos garantir o tal sucesso almejado por todos. Precisamos, no entanto, construir essa unidade social e econômica, de forma que não nos esqueçamos de contemplar todos os colaboradores de forma justa.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas por alguns empregados, por serem diferentes dos demais e conviverem com limitações muito grandes a sua atuação, deve estar no radar dos seus colegas a preocupação com o respeito ao seu espaço e as suas conquistas.  E isso não é um sonho, pois já noto uma solidariedade muito grande entre as pessoas nesse sentido, nos mais diversos lugares freqüentados pelos deficientes.

Fico muito impressionado com o grande apoio que os deficientes recebem para embarcar e descer dos trens, durante o seu deslocamento para o trabalho.  São cadeiras de rodas carregadas por escadas enormes e deficientes visuais auxiliados, desde que entram nas estações até saírem no seu destino final.  Também durante o trabalho, os funcionários estão sempre prontos a ajudarem os colegas com dificuldades a conseguirem realizar suas tarefas.

Esse esforço coletivo no sentido da inclusão e da convivência igualitária no trabalho é que precisa ser valorizado e estimulado, de forma que possamos contaminar toda a organização.  Quando os empregados, com ou sem deficiência, tiverem oportunidade de transitar por todos os níveis e ocupar os espaços possíveis ganharemos muito com o aproveitamento do potencial dos colaboradores, porque  eles certamente se sentirão motivados a contribuir mais por um sucesso comum. 

Já existem pesquisas demonstrando que as empresas que investem na sustentabilidade e na integração social estão percebendo um aumento considerável nos seus resultados.  Não adianta adiar essas providências porque elas estarão cada vez mais presentes e garantidas no cumprimento da ISO 26.000.  Por isso, terão melhores resultados aqueles que saírem na frente nesse processo e garantirem o espaço e as oportunidades merecidas por todos, para que se produza mais e de forma mais prazerosa, na execução das tarefas.

Acredito que, agindo dessa forma, estaremos garantindo o sucesso das empresas e dando uma enorme contribuição no processo de inclusão social, além de, subsidiariamente, promovermos maior distribuição nas riquezas e reduzirmos os problemas decorrentes do desemprego na sociedade.

 

José Antônio da Silva

Consultor em Tecnologia da Informação e especialização em projetos de inclusão de diversidade

10 de Julho de 2010.