Velhice, Aposentadoria e Futuro |
Carlos Lima |
Não podemos pensar na velhice como um evento particular, dissociado do contexto de vida anterior a ela. Trabalhando com a idéia de que há um tempo interno, que é o tempo vivido, onde as lembranças permitem que sejam resgatadas fases anteriores da vida, fica difícil que uma pessoa se veja como velha. Talvez isso explique o que aconteceu ao senhor Pedro, que ainda muito jovem tinha medo de envelhecer, e considerava trinta anos já uma idade bastante avançada onde poderia deixar de viver. E hoje, aos sessenta e cinco anos, acha que não está velho, e que talvez vá estar quando tiver noventa anos. Estar velho passa a ser uma questão de relativizar: velho em relação a quem? Para o jovem de dezoito, trinta já é velho, mas aos sessenta e cinco, trinta passa a ser o jovem, e velho o que tem noventa. Isso nos permite dizer que sempre fomos e sempre seremos o velho de alguém. E que olhar para o tempo interno não permite que se veja este velho, ainda mais carregado de todo o significado negativo que este termo traz consigo. Velho, portanto, passa a ser sempre o outro, aquele a quem só se tem acesso ao corpo externo, e não ao tempo vivido. A aposentadoria apresenta-se como fator importante neste processo de mudança, pois retira o homem da sua atividade de trabalho, por entender que ele já está velho demais para produzir, embora não necessariamente ele se sinta assim. O termo “aposentar”, por si só, já designa uma postura de passividade, ou seja, recolher-se aos aposentos, vestir o pijama e lá ficar, passivo. Não chamar a atenção para o fato de que o idoso é um ser complexo, que tem na sua memória as outras fases que viveu anteriormente, é permitir que continue se referindo a ele de forma desrespeitosa, tratando-o como uma pessoa fora do tempo atual – que é considerado o tempo dos jovens – e no caso específico dos aposentados, que continuem sendo vistos como seres obsoletos e ultrapassados, que devem ser descartados como objetos que não servem mais. Não pensar numa política que preste atenção a estes homens que destinam tanto tempo da sua vida ao trabalho, tratando-os com o respeito que merecem na hora do desligamento, é no mínimo cruel e perverso, pois abre espaço para que tenhamos homens doentes, tomados por uma sensação de angústia e vazio, por não saberem o que fazer com o tempo livre, por não se reconhecerem no papel de velho e de inativo que a eles é atribuído.
Março/2010 |
