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Velho é o Outro

 
Carlos Lima

Sabe-se que o envelhecimento é um processo biológico que se inicia no momento em que somos gerados. Portanto, envelhecer é condição para que se esteja vivo. Mas podemos pensar também na velhice como uma construção social, posto que cada sociedade determina quando o indivíduo começa a ser considerado velho para exercer determinados papeis. Na perspectiva antropológica, envelhecer é um processo biológico,  mas a velhice é também uma categoria socialmente produzida , ou seja, existe um fator universal biológico onde as pessoas nascem, crescem, envelhecem e morrem, mas há também um fator cultural que determina a partir de quando um indivíduo é considerado velho, e que é diferente em cada sociedade. A cultura interfere não apenas na classificação que se faz da velhice através do tempo cronológico, mas também na postura que se espera destes velhos.


No caso dos aposentados, por exemplo, parece que há uma cadeia de idéias que os define: primeiramente são considerados velhos para continuar exercendo a função que lhes era dada. Então, se são velhos, significa que são desatualizados, despreparados para acompanhar as mudanças do mundo novo que a eles se apresenta. Passam também a ser considerados lentos demais, incapazes de aprender e modificar a maneira que desenvolvem seu trabalho. Em contrapartida, os jovens passam a significar a modernidade, o “sangue novo” necessário para a empresa. Ou seja, ao funcionário mais antigo resta o passado, não há para ele lugar no presente, nem perspectiva de futuro, pois é forçado a acreditar que está ultrapassado nos seus conhecimentos em relação ao trabalho que desenvolve. A noção de um tempo cronológico leva a uma concepção que fragmenta a vida em etapas, e não incorpora ao homem atual as etapas anteriormente vividas. Como não incorpora não se reconhece no velho, o jovem que foi um dia, e ele passa a valer apenas pela lembrança do seu passado e juventude.


Por essa dinâmica se constrói a imagem simbólica negativa, como que um arquétipo, do velho lento, do velho desatualizado, resistente a mudanças e incapaz de aprender, ou seja, do velho improdutivo. E em contraste, forja-se a imagem (positiva) de jovem associada à rapidez e disponibilidade às mudanças e à produção. Se isso é reforçado dentro da empresa, e não se abrem possibilidades de desenvolvimento aos mais velhos, aquele que é veterano acaba incorporando esse sentimento de estar fora do seu tempo. Deixa de ter significado dentro da empresa em relação ao seu trabalho. Sente que está perdendo lugar para os mais jovens, e sentindo-se ultrapassado, passa a ter a impressão de que o tempo dedicado à empresa foi um tempo perdido. Se não há uma preparação para o desligamento da empresa, onde se valorize o profissional mais antigo, a impressão que fica é de que todo o conhecimento adquirido ao longo dos anos foi em vão e já não serve mais pra nada, dando a sensação de um tempo que foi jogado fora. Como durante a vida profissional o tempo do trabalho mistura-se ao tempo da vida privada, o tempo perdido no trabalho passa a ser também um tempo perdido na vida.

Julho/2009